Um livro, 30 ensaios, um mundo que se aproxima – por Pilar del Río

Um livro, 30 ensaios, um mundo que se aproxima

por Pilar del Río

 

Antes de mais, sejam todos bem-vindos: a Fundação José Saramago nasceu para refletir sobre o presente e o futuro, caso o tenhamos. Ou seja, hoje e aqui estamos onde devemos estar. Obrigada, Professor Boaventura de Sousa Santos, por este livro de que vamos falar a seguir. Obrigada, Professora Maria Irene Ramalho, por estar aqui. Agradeço também a presença dos restantes amigos e amigas: não os vou nomear para não tornar as saudações intermináveis, mas deixo beijos em cada bochecha. Obrigada.

Às vezes, apresentar um livro de ensaios dá medo: Ensaios? Aqueles que se escrevem e se lêem nas universidades e pronto, ouço dizer com os meus ouvidos de rua. Pois não, aqui apresentam-se ensaios e hoje não é a primeira vez que o Boaventura — vou deixar de lado o tratamento formal, ele merece-o como o grande filósofo que é — o fez: na Fundação José Saramago foram apresentados imensos volumes de conhecimento e sabedoria do Boaventura e também livros de poemas destinados a serem cantados por rappers. E tudo correu bem, até mesmo no dia em que Pacheco Pereira discutiu com ele o título do livro que estava a apresentar. Foi um momento glorioso que nunca esqueceremos, sobretudo a anfitriã, que várias vezes morreu de susto. Ressuscitei com o sorriso divertido do autor, Boaventura, que nos conduziu com humor até ao final triunfante, após a conversa mais brilhante que se possa imaginar.

Voltemos ao presente: como sou organizada, decidi escrever um texto de apresentação ao qual dei o título de um dos capítulos do livro: «Viver entre ruínas, a condição humana abissal». Depois, pensei melhor e decidi que quem tem de falar do seu livro é o autor, por isso dispensei o texto básico que me ocupava, invocando um provérbio, apesar de não ser nada dada a provérbios: «Este não é o teu caminho, por isso, passa à ordem do dia, borboleta.» Então, rasguei o que tinha escrito (que não valia nada, ninguém vai chorar por isso) e coloquei-me nas ruínas que tanto me tinham chamado a atenção, não só porque o capítulo era o que era, mas, e isto é o importante, porque olhei e vi o mundo, vi as guerras, as ruínas provocadas pela estupidez criminosa e pela insensatez assassina. Vi as declarações infames daqueles que não respeitam o sistema democrático nem aqueles que nele vivemos, vi os ressentidos que vociferam ódio sem compreender que estão a ser manipulados, vi ontem, enquanto pensava no que dizer, as ruínas dos terramotos na Venezuela, que não são castigos da natureza, mas sim pecado ou crime daqueles que, sabendo que «casa» é sinónimo de «habitação», ou seja, um lugar para habitar e conviver, se lançam em operações empresariais descabidas e constroem em locais inadequados, ignorando a informação básica de que os seres humanos que vão morrer precisam: «este local é inadequado para construir». E a terra abre-se onde estava escrito que se abriria. Vi isso, ruínas, e compreendi que viver entre ruínas é a condição humana abissal. Não quis nem quero aceitar isso, embora, talvez, o professor tenha toda a razão e a vida seja mesmo assim.

«Mas o livro é mais do que isso, querida», poderia dizer-me qualquer um de vocês, todos tão rigorosos e sábios, todas tão rigorosas e sábias, tão universitárias todas as pessoas que, numa sexta-feira de verão, adiam o jantar para estarem aqui, nesta sala de livros, tão rodeados do melhor que somos e temos. Pois sim, agradeço que o digam, o livro é mais do que a constatação das ruínas, e é tanto mais que lê-lo faz brilhar os olhos. É composto por trinta capítulos, ou seja, poderíamos muito bem dizer que são trinta ensaios, todos diversos, embora unidos por algo que ainda não mencionei: o seu título, Dicionário Insubmisso para o Século XXI. E caso ainda haja alguma dúvida, o autor explica no subtítulo o que faltava: Trinta exercícios socio-espirituais. Está claro, não é? Pensem que estamos perante o pai das Epistemologias do Sul e isso já é definitivamente esclarecedor…

Trinta ensaios que constituem um compêndio da sabedoria que o tempo tem vindo a produzir ou que os seres humanos têm produzido ao longo do tempo. Descreve-se também a letargia do inconformismo que tantas vezes nos invade ou a emoção de encontrar vias possíveis para não sermos nós, cidadãos daqui e dali, meros eletrodomésticos, ou seja, aparelhos que lavam e limpam, mas não conferem esplendor, como fazem os bons académicos — obrigada, professores presentes —, seres criativos e poéticos capazes de corrigir a tese 11 de Marx, tal como faz Boaventura de Sousa Santos, embora, e é ele próprio quem o confessa, tornando-a menos elegante, embora talvez mais útil, porque o nosso homem propõe, além de constatar, tal como fez Marx. Vejamos primeiro o texto: «Os filósofos não fizeram mais do que interpretar o mundo, mas o que está em causa é transformá-lo», escreveu Marx. Agora, o nosso autor propõe outra redação:

“Em face disto, a nova tese onze devia ter uma formulação mais ou menos assim: ‘Os filósofos, filósofas, cientistas sociais e estudiosos de humanidades devem estar dispostos a reconhecer a incompletude do seu conhecimento e a abrir as fronteiras formais que o delimitam, a fim de permitir diálogos com diferentes saberes vernáculos nascidos em lutas contra a dominação, dos quais possa emergir um enriquecimento cognitivo mútuo (ecologias de saberes), através do qual compreensões mais capacitantes do mundo e práticas transformadoras mais pragmaticamente eficazes possam resultar numa humanidade não dividida entre humanos e sub-humanos e na concomitante libertação da vida humana e não-humana’. É muito menos elegante que a tese onze original, mas talvez nos seja mais útil”.

Mais completa, não é? Quanto à poesia, mais ou menos, fica ao critério de cada leitor.

Este livro pode ser lido sem seguir qualquer ordem, mas é preciso lê-lo, porque todos os capítulos, que não vou enumerar, contêm propostas novas, teses clássicas e outras novas e definitivamente desconcertantes. «O que faz Deus metido em tantos capítulos?» foi a pergunta inicial que me fiz ao abrir o volume. Depois, a curiosidade vai-se orientando e concretiza-se em conceitos; há uma nova espiritualidade não pervertida pelas religiões do Norte Global, como somos chamados nós, europeus, que não navegamos numa jangada de pedra em direção ao Sul, mas estamos, e bem firmes, às ordens do grande e ridículo poder que afirma ser capaz de destruir uma civilização milenar numa noite. E que vai conseguindo arrasar essas e outras terras, faixas como a de Gaza, estreitos como o de Ormuz, ilhas como Cuba, continentes aqui e ali que também são ilhas, embora maiores, todas situadas neste arquipélago chamado Terra, onde tentamos viver com os nossos sonhos e sabores. Até que o maldito poder decide aumentar a sua fortuna matando e destruindo ainda mais, perante a nossa impotência ou indiferença, não sei, dirão vocês.

A propósito, Professor, a jangada de pedra que navega voluntariamente para sul está repleta de pessoas que procuram o encontro com semelhantes; aqueles que navegam a partir destas costas não o fazem com ânimos guerreiros nem colonizadores, querem partilhar conhecimentos, compreender outras culturas onde cabem sombras, interjeições, o Iluminismo e os murmúrios da terra, tão evidentes quando decidimos ouvir, tão acolhedores como as lendas que nos abraçam quando temos medo e a única coisa que nos apetece é morrer. Então, o poder transformador das emoções abala-nos e talvez nos levante do chão, dando origem aos encontros, meus irmãos, partes da minha alma, amor no plural, amor divino.

Termino como devia ter começado: Insubmissos????? Será que ainda existem no século XXI? A quem se destina este dicionário se os insubmissos desapareceram — se nós desaparecemos — quando passou o Maio francês, se nunca mais dissemos que o mar estava debaixo das pedras da calçada e que nele íamos banhar-nos enquanto a lua nos abençoava? Insubordinados de fato e gravata, obedientes a todos os mandatos sociais, felizes porque o Muro de Berlim caiu (que não fomos nós que o derrubámos), mas o autoritarismo sectário da esquerda e da direita manteve-se e, com esse sectarismo, a democracia é mortalmente ferida uma e outra vez? Insubmissos porque reduzimos a liberdade a viajar de comboio ou de carro? Enfim, não compreendo a insubmissão se não consigo que digam «minha presidenta» no feminino, porque não consta dos dicionários de Salazar — dizem eles sem terem consultado os dicionários —, se não se grita todos os dias «Não à guerra», seja oportuno ou não, se a pátria manda mais do que cuidar dos nossos semelhantes, aqueles que vêm à procura de formas de viver e acabam por cuidar da vida daqueles que aqui estamos. Desobedientes a que mandatos, a que perversões, se aceitamos todas elas, se somos dóceis ao votar e a organizar a sociedade como nenhum animal jamais foi para com o seu rebanho? Desobedientes, condescendentes, o que somos nós, Professor? Há tanto, tanto para aprender com este livro…

Enfim, caro autor, caro amigo, desculpe pelo discurso inflamado, o livro arde, arde tanto que tive de me controlar enquanto o lia para não incendiar o edifício… Bom, incendiar é uma brincadeira; tudo o resto que senti — paixão, raiva, desconcerto, ideias novas, imperativos, lucidez —, tudo isso e muito mais é amplitude de consciência. E uma enorme gratidão pelo seu livro, por o ter escrito, por nos questionar e por sermos nós, os leitores e as leitoras, que temos de nos definir. Fá-lo-emos. Agora, a palavra é sua. Obrigada.

 

Leave a Reply